domingo, 16 de maio de 2021

Eu sofro de compulsão.

 Há muitos anos eu sofro de um transtorno. Desde quando eu posso me lembrar, sou uma pessoa compulsiva. Esse transtorno afeta alguns aspectos da minha vida, mais evidentemente na minha alimentação, compras e acúmulo de coisas, das quais não consigo me livrar. 

Eu não sei quando exatamente e nem porque isso começou. Não sei se foi a solidão, a depressão, a tristeza, a ansiedade... ou tudo junto. Nunca procurei ajuda. Não é fácil falar sobre isso. Por isso prefiro ser mais uma anônima na internet. 

Acho que eu preciso desabafar. Tem coisas que só saem por escrito. Não sei se alguém vai ler... Lia com muita frequência blogs de meninas que sofrem de anorexia e bulimia, ou ainda as pró-anas e mias, mas compulsão é mais difícil. 

Decidi apenas escrever, nem que seja para mim mesma. Leitores são bem vindos, mas eu só preciso de um lugar onde eu possa falar o que sinto, o que se passa, o que eu faço, o que eu escondo. Aliás, o que mais faço é esconder. Apenas uma amiga minha sabe da minha condição. As pessoas que convivem comigo não imaginam isso. Nem meus pais, com quem ainda vivo. Não que não seja bom viver com eles, claro que é, porém mesmo que eu não quisesse eu não teria outra opção no momento. Apesar de ser funcionária pública, apesar de não ganhar tão mal assim, apesar de já ter passado dos 30, meus hábitos me impedem de viver sozinha, de comprar um apartamento ou alugar um, porque estou atolada em dívidas e contas de cartão de crédito que comprometem quase todo meu salário. 

Sim, dívidas. Vou falar sobre isso ao longo dos posts e mostrar como uma pessoa que ganha mais de 5 mil reais por mês e mora com os pais consegue não ter mais dinheiro dois dias depois de receber e já ter ficado sem dinheiro até para comprar meias. Eu precisava das meias mas tinha que pagar o carro, os 4 cartões de crédito, o dentista e toda a comida que ingiro, então, sim, fiquei sem meias. 

Parte de mim acha que só falta vergonha na minha cara. A outra parte acha que preciso de um acompanhamento médico, terapia e remédios, pois tenho um problema. Compulsão é uma doença. Sair em plena pandemia para ir ao shopping e gastar mais de mil reais (possuindo mais de 30 mil em dívidas) é doença. Comprar 4 livros sendo que existem na minha estante cerca de 350 livros não lidos é doença. Ter 400 vidros de esmaltes, alguns vencidos há 8 anos, é doença. Ter 3 quilos de chocolate escondidos dentro da sapateira é doença. Ter inúmeros cosméticos vencidos (pois tenho preguiça de usar) e não jogá-los fora é doença. Sair durante uma pandemia, sendo do grupo que tem comorbidades, só para comer um sanduíche em um shopping que está há 40km de casa é doença. Comer 12 mil calorias em uma semana somente em chocolates e doces é doença. Ter embalagens e mais embalagens de comida escondida para descartar longe de casa é doença. Comer até sentir que vai explodir, parar o carro no meio do trânsito para abrir a porta e vomitar é doença. 

Tudo isso e mais é o que ocorre comigo e eu escondo há anos. Tantos anos que nem me lembro, sinceramente. Tenho lembranças de episódios desde a infância, onde minha mãe escondia doces e eu revirava a casa até achar. Lembranças de esperar ela sair para a Igreja e meu pai sair para trabalhar, comprar leite condensado e lasanha e comer tudo antes que voltassem. Lembranças de roubar dinheiro do caixa da loja onde trabalhava para comprar comida - pois já tinha gastado tudo que tinha recebido. Uma vez trabalhei em loja que tinha uma lanchonete. Às vezes eu ficava atendendo durante o horário de almoço da menina e comia dois folhados de frango, uma lata de coca cola e bombom durante esse tempo, escondida de todo mundo, agachada ao lado da lata de lixo para que ninguém me visse. Hoje mesmo, saí para comprar ração de papagaio, voltei com a ração e um pote de sorvete que pensava em comer tudo depois do almoço. Comi só um pouco, o sorvete era ruim. Neste momento quero começar uma dieta amanhã, mas também quero ir ao shopping comer hambúrguer do Madero (sim, existe uma dualidade de pensamentos e vontades).

Alguém que não tenha transtornos alimentares deve ler isso e achar um puta absurdo. É como vivo minha vida. 

Não sei o que fazer... É simples pensar em dieta e academia, nutricionista. Eu me sinto tão cansada e penso que ficarei assim até minha hora de ir embora. Às vezes tomo remédio para dormir e apagar e não quero que o dia amanheça para não ter que encarar outro dia ruim. Eu me sinto cansada de fazer planejamentos e não cumprir nada. Eu não consigo sequer trocar de roupa pela manhã, pentear o cabelo, abrir a janela e escovar o dentes. Só quero comer, ler e ficar deitada. 

Eu preciso salvar a mim mesma. 




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